A poesia é...


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A poesia é algo intrínseco, um vento que passa e balança o cabelo, um beija-flor voando em sua janela, um raio de sol na fresta da porta, uma caminhada na beira do lago, uma música ouvida de olhos fechados. Poesia está no ar, na terra, no fogo, no mar. Poesia é como amor, na verdade a poesia é o amor. Amor do tipo insensato, impune, criativo, incrédulo. Um amor por tudo que passa, por tudo que vem, por tudo que se cria, por tudo que se mata. Poesia é expressão de uma alma criativa e inquieta, sensível e meticulosa.

Paredes brancas e cinzas


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Ele nunca havia feito isso. É realmente engraçado pensar como uma pessoa aparentemente apática poderia tomar uma decisão daquele tamanho. Estava esperando o metrô, saguão quase vazio, tarde da noite, um ou outro conversando atrás dele. Um sentimento estranho. Um ambiente estranho. Aquele não era seu habitat, logo ele acostumado com paredes limpas e brancas de um hospital. Ele, que escolhera a medicina pela oportunidade de não precisar manter papo com ninguém. Casava com sua personalidade, nisso seu pai acertara. Agora, longe das paredes brancas, tinha um caminho a seguir: rumo à estação da Liberdade, andar quadro quarteirões depois da Sé e bater na porta dela. Seria difícil, mas ele estava decidido, como nunca estivera antes.

Uma luz pontava do final do corredor, o trem já estava vindo. De repente, as pernas começaram a vacilar, na cabeça mil pensamentos. Parou, abriram-se as portas. Ele entrou. Sentou em uma das cadeiras azuis com a cabeça muito longe dali. Em menos de cinco minutos ele estaria na estação da Liberdade. Uma senhora senta-se à sua frente. Os dois se olham. Ele pensa que ela pode ler o medo que está tomando de conta dele. Nunca fora um homem muito corajoso, mas era frio e não deixava transparecer facilmente seus pensamentos. Dessa vez, parece que fora descoberto.

O trem parou. As portas de abriram. Se levantou e saiu. Subiu as escadas e encarou o vento frio da madrugada em seu rosto. Não tinha lembrado de trazer agasalho quando saíra do hospital. Só queria encontrá-la e dizer que não poderia mais viver sem ela. O amor ainda era uma coisa estranha para ele, um sentimento renegado por anos, mas que agora aflorava com toda a força. Começou a andar pelas ruas. Desertas, tudo era cinza. As paredes, as pessoas, a fumaça. Lembrou de como as paredes eram brancas no hospital, de como tudo parecia limpo, ele mesmo estava limpo, livre de dúvidas e de medo. Agora, aquele cenário cinza parecia sujo, cheio de substâncias ruins, como estava sua cabeça agora. Pensava no que falar quando encontrasse com ela. Daqui a pouco viria seu rosto, lindo como sempre, e, quem sabe, tocaria em suas mãos.

O último quarteirão se aproximava. Passavem por ele os últimos muros cinza, pensou sua mente estar agora mais limpa, mais decidida. Chegou. A porta vermelha parecia a mesma desde a última vez que estivera alia, fazia um mês. Apertou o botão da campainha. Passos pesados viam. Abriram a porta. Era ela, linda e serena, como sempre. Como ele se lembrava. Estava com o mesmo colar, o cabelo caindo sobre o ombro, a mão na maçaneta, um leve decote no colo. Os olhos estavam como ele aprendera a ler: surpresos, grandes e expressivos.

Aquilo era demais. Vê-la assim, tão perto depois de tanto tempo. Tantas noites frias longe dela. Lembrou de tudo isso. Da mesma maneira, esqueceu tudo o que vinha ensaiando falar. Só pôde abrir a boca e dizer "Eu te amo".

O passarinho azul


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O passarinho na gaiola é azul. Tem o olhar triste e, se se chega perto, logo fica nervoso. Quando tentam pegá-lo ele é agressivo. Tem as asas cortadas e, em uma das patas, uma coleira de identificação. Não bastaram as grades da gaiola, fora preciso seu dono instalar também rede. Dessa maneira o passarinho azul é feliz, pensa seu dono.

Come todos os dias alpiste. Bebe água no bebedouro. Já não aguenta mais. Já não canta mais. Seu olhar é triste, quer sair, mas não o deixam. É agressivo. Talvez sinta o perigo de se relacionar com humanos.

Sinto que ele chora em vez de cantar. Há tempos entoa um canto triste, um canto que parece de um funeral. Talvez esteja celebrando seu próprio enterro. Talvez esteja prestes a morrer.

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